O ABC de como perder a liberdade

Assim, sem drama, sem ruturas, sem um momento claro em que tudo mudou. 
Uma sucessão de pequenas cedências, quase impercetíveis e a liberdade já não é bem aquilo que era. 
Não foi tirada à força, foi sendo entregue, esquecida, deixada para trás. 
O mais inquietante é que quando finalmente se nota, já ninguém sabe dizer o que mudou, onde começou, nem quando deixou de ser defendida. 

Celebramos abril todos os anos, mas é urgente deixar de celebrar o passado para reconhecer o presente e assim garantir que a liberdade fará parte do futuro das minhas, das nossas crianças. 

Porque a liberdade não se perde de uma vez. Entrega-se assim, letra a letra. 

Sou mãe de duas crianças, talvez por isso obrigo-me a olhar para o futuro com mais atenção do que por vezes me é confortável. Todos os anos em abril lhes falo de liberdade, do que foi conquistado, do que mudou e do que nunca mais queremos repetir. Quero manter vivo neles o quanto o meu pai sonhou, acreditou e lutou para hoje podermos fazer e dizer o que nos vai no coração. 

Este ano, porém, não falarei de liberdades conquistadas, chegou o momento em que tenho de lhes falar de outra coisa. Uma coisa realmente importante. Falarei de como se perde a liberdade. Terei de lhes explicar que não se perde de repente, que não haverá avisos e que não haverá um dia em que tudo muda. Terão de ser vigilantes, pois a liberdade perde-se devagar, com silêncios, com decisões e escolhas que parecem banais 

E então pensei, como seria o ABC sobre perder a liberdade? Como seria se o colocasse num manual? Provavelmente seria assim: 

“O ABC de como perder a liberdade” 

 A - Acredita que isso nunca te vai acontecer 
Aqui não. Agora não. Isso é coisa de outros. 

B - Banaliza tudo 
Factos, opiniões, mentiras. Tudo ao mesmo nível, nada pesa, nada se confirma. 

C - Cansa-te de pensar 
Reagir é mais rápido. Dá menos trabalho. 

D - Deixa de dizer o que pensas 
Não vale a pena. Vai dar chatice. 

E - Encaixa 
Discordar cansa. Pertencer é mais fácil. 

F - Faz de conta que não é contigo 
Há sempre alguém mais responsável ou que se preocupa mais. 

G - Gosta, partilha, comenta 
E chama a isso participação ativa. 

H - Habitua-te 
Ao ruído. À pressão. Ao ódio constante. 

I - Ignora os sinais 
Nada mudou assim tanto. 

J - Justifica tudo 
“Também não é assim tão grave.” 

L - Limita-te ao que já concordas 
O resto incomoda. 

M - Mede tudo pela reação dos outros 
Se agrada a muitos é porque está certo. 

N - Normaliza 
Com o tempo, tudo parece aceitável. 

O - Opina sem saber 
Mas sempre com muita certeza. 

P - Prefere conforto à verdade 
A verdade exige mais de ti 

Q - Questiona menos 
Não compensa e podes não ser aceite. 

R - Repete 
Parece pensamento. 

S - Silencia-te 
É mais seguro. 

T - Torna tudo superficial 
Nada merece aprofundamento. 

U - Usa o humor para desvalorizar 
Assim nada é sério. 

V - Vive para não incomodar 
Liberdade com limites invisíveis. 

X - “Xinga” quem discorda 
Substitui argumento por ataque, assim enervas e fazes-te ouvir. 

Z - Zero reação 

Assim, sem drama, sem ruturas, sem um momento claro em que tudo mudou. 
Uma sucessão de pequenas cedências, quase impercetíveis e a liberdade já não é bem aquilo que era. 
Não foi tirada à força, foi sendo entregue, esquecida, deixada para trás. 
O mais inquietante é que quando finalmente se nota, já ninguém sabe dizer o que mudou, onde começou, nem quando deixou de ser defendida. 

Celebramos abril todos os anos, mas é urgente deixar de celebrar o passado para reconhecer o presente e assim garantir que a liberdade fará parte do futuro das minhas, das nossas crianças. 

Porque a liberdade não se perde de uma vez. Entrega-se assim, letra a letra.