Quando a “melga” deixa de ser apenas incómodo
Temos assistido a um aumento das notícias que dão conta de uma propagação de mosquitos transmissores de doenças infecciosas no território nacional. Para a comunidade científica, esta realidade não constitui novidade — os alertas têm sido constantes. A entrada destas espécies invasoras na Europa não é recente, o que torna a situação ainda mais preocupante. Não é a primeira vez que os avisos da comunidade científica são ignorados, e, tal como aconteceu durante a pandemia de COVID-19, continuam a faltar planos de ação concretos.
Vivemos num país onde, até agora, com exceção da Madeira, não tínhamos razões para nos preocupar com doenças transmitidas por mosquitos. Uma simples picada — a habitual “melga” — era vista apenas como um incómodo passageiro ou uma chatice noturna. Assim, a população portuguesa tem pouco conhecimento sobre estas espécies e as doenças que podem transmitir. O nosso sistema imunitário não está preparado para as enfrentar e o sistema de saúde carece de formação específica para lidar com casos em grande escala.
Num mundo globalizado, onde mercadorias e pessoas circulam rapidamente entre países, a disseminação destes mosquitos era quase inevitável. Quando juntamos a isso as alterações climáticas — frequentemente subestimadas — temos o cenário ideal para a proliferação de espécies em regiões onde antes não existiam.
É importante sublinhar que, até ao momento, não foram detetados mosquitos infetados com microorganismos causadores de doenças como a dengue, o zika ou a chikungunya. No entanto, não se deve ignorar que o risco existe. E devemos estar preparados. Não há motivo para pânico, mas deve haver confiança de que existem esforços concretos para minimizar o perigo e mecanismos e procedimentos prontos a serem acionados, caso seja necessário.
A resposta não pode basear-se apenas na vigilância epidemiológica, embora esta seja crucial. É igualmente fundamental investir na educação da população: explicar que há espécies que picam em diferentes partes do dia, não só durante a noite, sensibilizar para a eliminação de águas paradas, onde os mosquitos se reproduzem, e divulgar os sintomas e em quanto tempo se começam a sentir após a picada do mosquito.
Por fim, as equipas de saúde precisam de formação nesta área. Não podemos deixar esta responsabilidade exclusivamente para as consultas do viajante, porque o risco já não se limita a quem viaja. A informação e a preparação continuam a ser as melhores armas para enfrentar este tipo de ameaça.