Uma ponte para modos de mobilidade suave em Viana do Castelo… chamada Eiffel
Há poucos dias, fomos confrontados com as imagens do projeto vencedor para a nova ponte pedonal e ciclável sobre o Rio Lima. Independentemente do impacto visual que esta construção terá na silhueta da nossa cidade e na leitura da icónica Ponte Eiffel — cuja candidatura a Património Nacional assinalou os seus 140 anos — há um debate mais profundo que urge fazer: que mobilidade queremos para o futuro de Viana?
Recentemente, o Município implementou a nova rede TUViana. Apesar das dores de crescimento e de algumas insuficiências iniciais, o caminho é, indiscutivelmente, o correto. Vivemos um tempo em que as alterações climáticas deixaram de ser matéria de discussão para se tornarem uma evidência dramática. A descarbonização não é mais uma urgência; é uma emergência. E é aqui que a política de transportes deve ser o pilar central da nossa estratégia urbana.
Contudo, se a aposta no transporte público e outros meios suaves parece acertada, a proposta de uma nova ponte pedonal e ciclável afigura-se-nos um erro de visão.
A verdadeira descarbonização não se faz acrescentando corredores "protegidos" para os modos suaves, mantendo intactos os privilégios do automóvel particular. Pelo contrário, faz-se limitando e, progressivamente, eliminando o espaço reservado ao transporte individual. Ao construirmos uma nova travessia para peões e bicicletas, estamos, ironicamente, a melhorar o corredor rodoviário da Ponte Eiffel, tornando-o exclusivo para carros e perpetuando um modelo do passado.
A solução que o nosso tempo exige é outra: a reconversão do tabuleiro rodoviário da Ponte Eiffel numa zona de coexistência exclusiva para modos suaves – peões, bicicletas e transportes públicos.
Imaginemos uma Ponte Eiffel onde o acesso motorizado é reservado apenas aos transportes públicos, protegendo e priorizando os utilizadores mais vulneráveis. Para que isto funcione, a receita é clara: é necessário reforçar a pendularidade entre Darque e o centro da cidade, com frequências que não ultrapassem os 15 minutos e com gratuitidade na ligação entre margens. Fora do período diurno (por exemplo, entre as 22h e as 07h), a ponte poderia reabrir ao tráfego geral, gerida por dispositivos técnicos que hoje são banais.
Sei que esta proposta encontrará resistência em nome da "comodidade individual". Mas convido os céticos a olhar para o exemplo do tabuleiro superior da Ponte D. Luís, no Porto, ou para a Ponte de Trajano, em Chaves. Alguém defenderia hoje o regresso do trânsito automóvel indiscriminado a esses locais?
Mudar exige coragem política e clareza de prioridades. Esta visão para a Ponte Eiffel teria, naturalmente, de integrar um plano de mobilidade urbana mais vasto: interfaces de estacionamento periférico, substituição de faixas de rodagem por vias dedicadas a modos suaves dentro da cidade e a integração definitiva do transporte fluvial na ligação ao longo do rio e entre margens.
Não precisamos de mais betão para separar modos de transporte; precisamos de inteligência e audácia para partilhar o que já temos. Haja coragem para mudar o que precisa de ser mudado. A emergência climática não admite hoje quaisquer condescendências.